A Condição da Raposa

por Miguel Almeida

A raposa e o ouriço

O ouriço e a raposa

Sir Isaiah Berlin:

Há uma frase entre os fragmentos do poeta grego Arquíloco que diz: A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa importante.

Os escolásticos têm divergido sobre a interpretação correcta destas palavras obscuras, que podem querer dizer nada mais do que, a raposa, apesar de toda a sua astúcia, é derrotada pela defesa única do ouriço. Mas, tomadas figuradamente, as palavras podem produzir um sentido que marca uma das diferenças mais profundas que dividem escritores e pensadores, e, eventualmente, os seres humanos em geral. Porque existe um grande abismo entre aqueles que, de um lado, relacionam tudo com uma visão central única, um sistema, mais ou menos coerente e articulado, nos termos do qual compreendem, pensam e sentem – um princípio único, universal, apenas no qual tudo o que são e dizem tem significado – e, de outro lado, aqueles que perseguem muitos fins, muitas vezes sem relação entre si e até contraditórios, ligados, se tanto, apenas por alguma forma de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, sem estarem relacionados por um princípio moral ou estético. Estes últimos levam vidas, representam e recriam ideias que são centrífugas em vez de centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, movimentando-se em muitos níveis, capturando a essência de uma vasta variedade de experiências e objectos pelo que são por si próprios, sem, conscientemente ou inconscientemente, procurar inseri-los em, ou exclui-los de, uma visão unitária imutável, por vezes fanática, abarcadora de tudo, por vezes auto-contraditória e incompleta.

O primeiro tipo de personalidade intelectual e artística pertence aos ouriços, e o segundo às raposas; e sem insistir numa classificação rígida, podemos, sem muito receio de contradição, dizer que, neste sentido, Dante pertence à primeira categoria, Shakespeare à segunda; Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen, Proust são, em variados graus, ouriços; Herodotus, Aristóteles, Montaigne, Erasmus, Molière, Goethe, Pushkin, Balzac, Joyce são raposas (...)

in The Hedgehog and the Fox: An Essay on Tolstoy’s View of History (1953)